Os bastidores da saida de Barioni da Gol
Qui, 02 de Outubro de 2008
Claudio Magnavita
A compra da Varig não foi o único grande problema da Golpor Claudio MagnavitaCompleta um ano que David Barioni assumiu a Presidência da TAM. A sua saída da Gol, empresa que ajudou a fundar, para a direção da concorrente foi uma das mais surpreendentes mudanças diretivas ocorridas na aviação comercial brasileira.
Os bastidores dessa história só agora começam a ser revelados. Uma semana antes de aceitar o convite da TAM, Barioni teve uma conversa decisiva com os dois acionistas da empresa que possuem funções executivas: Constantino Júnior e Henrique Constantino, presidente e diretor jurídico da Gol, respectivamente. O teor do encontro era sobre a remuneração do vice-presidente, que seguia até então as faixas salariais da fundação da companhia. Como principal executivo operacional, ele ganhava R$ 32 mil e a participação do IPO (abertura de capital) da empresa continuava na promessa verbal, ao contrário de Richard Lark, vice-presidente Financeiro, que havia assegurado em contrato este direito. Aliás, tempos depois, ele sairia da empresa exercendo os seus direitos sobre ações e recebendo 30 milhões de dólares.
Mas, voltando ao Barioni... No encontro com Júnior e Henrique foi sinalizado que o salário era considerado justo pela empresa e que depois de um estudo chegou-se à conclusão que não deveria ser mexido. A conversa terminou em tom cordial, com a palavra final da negociação dada pelos acionistas.
Já com o cenário definido, David Barioni resolveu aceitar a proposta que a TAM tinha realizado através de head hunter, com o qual já conversava há quarenta dias. Se a remuneração era bem abaixo da importância que a empresa passou a ter – lembrando que no período ele além de ser responsável pela Gol tinha também a obrigação de cuidar da Varig –, era também muito inferior ao que diretores de empresas concorrentes ganhavam, não havia no seu contrato nada que o obrigava a se submeter a um período de quarentena, podendo efetuar a transferência quase que automática.
Dias depois, em um sábado, quando a imprensa já noticiava a ida de Barioni para a TAM, inicialmente como vice-presidente Operacional, mas já acordado que assumiria, depois de um período de experiência, a Presidência da empresa, a família Constantino foi surpreendida. Porém, a decisão havia passado por um período de negociação salarial na qual eles tinham dado o veredito.
Um dos episódios que desgastou ainda mais a relação com os acionistas da Gol e Barioni foi a decisão da empresa de pedir a devolução do veículo que o executivo utilizava e que por contrato seria de sua propriedade, só que faltavam apenas dois meses para que a transferência se concretizasse. Na prática, 97% do veiculo já pertencia ao ex-vice-presidente.
Esta história ilustra uma dura lição para a Gol. A empresa não soube criar mecanismos para garantir a premência dos seus executivos fundadores. O crescimento e a história de sucesso depende dessas mentes e braços que transformaram um business plan em um sucesso surpreendente.
Em casos como este, muito mais do que os acionistas, os funcionários, chefes, gerentes e principalmente os executivos maiores tem que ser beneficiados pelos resultados que produziram. A empresa saiu de seis para uma centena de aviões por conta do seu corpo de dirigentes. Remunerá-los à altura, ou ainda, distribuir resultados da abertura de capital é quase que uma norma internacional. A forma de gestão e o crescimento da distribuição de resultados deve ser proporcional ao crescimento das responsabilidades e dos resultados.
A companhia atravessa uma fase de decisões a partir da compra da Varig e não se deve atribuir somente a esta aquisição os problemas que a companhia passou a enfrentar. Existem fatores externos, como a alta do petróleo, porém os fatores internos são os mais graves.
A saída de Barioni não foi um fato isolado. Alem dele, a empresa perdeu boa parte dos seus executivos da área operacional. No fundo, eles não foram infiéis como alguns insistem em classificá-los, apenas corresponderam com o mesmo grau de fidelidade, que seria demonstrado em remuneração pela companhia. Ao trocar a Gol pela TAM, eles foram escolhidos por alguém do mercado que reconheceu e resolveu pagar pelos seus méritos.
A compra da Varig não foi o único grande problema que enfrentou. O mais grave foi o de não ter fidelizado os cérebros dos seus executivos fundadores e permitir que a concorrência resolvesse os problemas que possuía recrutando a solução dentro dos seus quadros. Este foi primeiro baque e que reverteu a imagem de sucesso permanente.
Neste processo de reposição da companhia no mercado, os acionistas da Gol/Varig devem incluir na agenda a correção do erro que levou a empresa a sangrar ao perder quase toda a sua equipe operacional de uma hora para outra. Além de crescer a empresa deveria ter a missão de consolidar as suas vitórias, pensando grande e pensando nos seus executivos como agentes deste próprio crescimento. Hoje, como presidente da TAM, as preocupações de David Barioni é de não deixar acontecer na sua nova empresa os erros que vivenciou na Gol. Para ele esse passado recente é página virada. É importante que se revele parte desta história, inicialmente pela visão de um dos lados, para que, abordando o assunto de frente, não haja repetição dos mesmos erros ou para que as lacunas ainda abertas nesta história não sejam preenchidas com pitadas de intrigas e rumores.
Cláudio Magnavita é diretor do Jornal de Turismo e da Aviação Em Revista.
terça-feira, 7 de outubro de 2008
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